Depressão grave, paciente suicida, surto: Um choque de vida

PSIQUIATRIA

Depressão grave, paciente suicida, surto: Um choque de vida

Sabe quando seu computador dá aquele tilt e o técnico pede para que você reinicie a máquina? Você aperta o botão certo e parece que a solução sempre esteve lá. Há recomeços que salvam máquinas, outros salvam vidas. Vamos falar de eletroconvulsoterapia – ECT e esse restart. Em 2018, Mato Grosso ganhou o Instituto Mato-Grossense de Eletroconvulsoterapia – IMECT, o primeiro centro de eletroconvulsoterapia para tratar de questões de saúde relacionadas à mente, como: depressões (grave, refratária, gestacional); pacientes suicidas; sintomas psicóticos agudos (esquizofrenia e mania ou depressão bipolar); doenças neurodegenerativas de difícil controle (doença de Parkinson e doença de Alzheimer), entre outros quadros com baixa resposta à terapia medicamentosa.

Apesar de mais divulgada nas últimas décadas, a ideia nuclear da ECT é mais antiga do que se imagina. Há relatos do uso de correntes elétricas desde 43 depois de Cristo, Scribonius Largus, médico do imperador romano Claudius – o qual sofria de intensas crises de enxaqueca – nas encíclicas 11 e 42 de seu manual de medicina, relata o emprego do peixe torpedo (um peixe de água salgada, capaz de gerar uma descarga elétrica na ordem de 50 volts), como forma de “eletroanalgesia” para o tratamento de dor de cabeça e gota.

Na medicina encontramos, com muita frequência, medidas heroicas - e até curiosas - sendo adotadas com o objetivo de aliviar e curar determinado mal. Meduna, um médico húngaro, observando o antagonismo entre epilepsia e esquizofrenia (esquizofrenia seria rara em pacientes epilépticos e vice-versa), induziu convulsão em pacientes esquizofrênicos e obteve uma significativa melhora do quadro. Desde então, diversas técnicas para induzir a convulsão foram testadas visando melhora clínica de diversas doenças: cânfora oral e injetável, choque insulínico, febre malárica e outras mais.

Porém, todas essas, apresentavam dificuldades no controle da intensidade e duração das crises convulsivas. Em 1938, dois neuropsiquiatras italianos, Ugo Cerletti e Lucio Bini, usaram pela primeira vez um equipamento bastante rudimentar, capaz de aplicar o estímulo elétrico diretamente sobre o escalpo do paciente e provocar uma convulsão –lembrando que para ‘silenciar o cérebro’, ou reiniciá-lo é necessário provocar uma convulsão. Desde então, inúmeros métodos se valendo do uso de energia elétrica foram criados como a eletroconvulsoterapia, a estimulação magnética transcraniana e a estimulação por corrente contínua.

Porém, apenas os dois primeiros possuem aprovação para uso clínico. A Estimulação Magnética Transcraniana (EMT) para o tratamento da depressão teve início em 1987, na Europa. À época, chegamos a nos perguntar: será que vamos conseguir, apenas com ondas magnéticas, os mesmos resultados que obtemos com a ECT? Caso isso ocorresse, todos migrariam para esse tratamento, uma vez que ele é indolor; dispensa anestesia, relaxamento muscular, jejum e todo o aparato de monitorização do paciente durante o procedimento.

Acontece que, muito rapidamente, a EMT também se mostrou ineficaz para muitos casos graves e gravíssimos. Logo, percebemos que são tratamentos diferentes, com indicações diferentes, com respostas diferentes e que a ECT continua sendo a principal indicação terapêutica para inúmeros diagnósticos, inclusive, e principalmente, as depressões graves de qualquer etiologia, especialmente as que carregam o risco de suicídio. Cabe ressaltar que a cautela e a prudência são indispensáveis e ponderar custo-benefício dos tratamentos deve determinar qual caminho seguir.

Em Mato Grosso, o tratamento de ECT tem recebido destaque desde que um grupo de médicos decidiu investir na aquisição do equipamento, a fim de tratar casos graves e gravíssimos da doença. Para disseminar o conhecimento sobre a técnica e desmistificar o tratamento, a psiquiatra Mercêdes Jurema Alves, membro da comissão de Defesa Profissional da Associação Brasileira de Psiquiatria, esteve em Cuiabá, no dia 29 de setembro, em uma palestra aberta a todos os profissionais da área da saúde.

Ela falou do estigma histórico sobre o tratamento, dos resultados comprovados e dos avanços científicos em busca de trazer qualidade de vida para quem sofre da doença. A presente matéria se baseia na entrevista que a médica citada concedeu, na ocasião, à jornalista Caroline Pilz Pinnow. De modo simples, se pode definir ECT como uma técnica altamente eficaz e segura, baseada na estimulação cerebral, por meio da eletricidade. Com isso, é promovida uma reorganização do funcionamento neuronal.

O estímulo provoca a liberação maciça de inúmeros neurotransmissores e culmina no chamado ‘silêncio cerebral’. Acredita-se que esse silêncio seja o responsável pela melhora clínica e recuperação do paciente. Daí decorre a analogia com um computador em mau funcionamento: a primeira medida sugerida pelos técnicos de informática seria a reiniciação, ou seja, desligar e ligar novamente. O método da ECT é amparado, aprovado e regulamentado pelo Conselho Federal de Medicina e pela Agência de Vigilância Sanitária (ANVISA).

O procedimento é tutelado por um psiquiatra, com o apoio de uma equipe composta basicamente por um anestesista e um enfermeiro. Essa pode ser complementada por diversos outros especialistas (cardiologista, arritimologista, obstetra...) a variar caso a caso. A ECT moderna ganhou contornos de estudos científicos, atingindo graus elevados de eficácia e segurança, chegando ao ponto de valer-se de estímulos ultrabreves (o estímulo elétrico que vai para cada paciente dura 0,2 segundos, ou seja, 1/5 de segundo), similares aos do funcionamento cerebral e passou a adotar a ‘onda quadrada’, que substituiu completamente a onda elétrica senoidal (desenho da onda elétrica original, disponibilizada pelas companhias de energia elétrica).

Essa substituição do desenho da onda conseguiu minimizar os efeitos colaterais desagradáveis da ECT. Para que ocorra a sessão de ECT, o paciente deve partir de uma indicação médica. Ao buscar o IMECT, é realizada uma avaliação que antecede o procedimento, na qual o paciente receberá informações detalhadas sobre a técnica, bem como terá um momento para sanar todas as dúvidas a respeito do tratamento. Serão solicitados exames complementares em consonância com a necessidade particular de cada paciente, bem como haverá explicações sobre jejum, vestimentas e demais preparos pertinentes.

Em geral, o tratamento é constituído por uma média de oito a doze sessões, realizadas de duas a três vezes por semana. A resposta clínica costuma ocorrer após a terceira sessão. Para ilustrar a abrangência de efeitos da técnica, devemos lembrar que a depressão vai muito além da tristeza e sintomas associados ao quadro. O cérebro é afetado não apenas em suas estruturas químicas, mas também nas físicas. O hipocampo é a estrutura cerebral que mais sofre com a depressão.

Dez anos de depressão mal tratada ou não tratada acarretam a perda de até 75% do volume dessa nobre estrutura e perder massa cerebral gera grave deterioração clínica. A ECT promove neurogênese, neuroplasticidade, aumento dos fatores de crescimento neuronal e diminuição dos fatores responsáveis pela apoptose neuronal (morte do neurônio), como a proteína TAU. Então aquela ideia de que a ECT está matando neurônios é uma lenda. É de extrema relevância lembrar que a ECT se torna o tratamento de primeira linha em casos de depressão grave na gestação ou no pós-parto, assim como em surtos psicóticos.

O que demonstra o incontestável papel do método nos transtornos de humor nos quais não se pode lançar mão ou em que haja a ineficácia das intervenções farmacológicas. Em que pesem as evidências científicas que comprovam o êxito da ECT, infelizmente, o que permeia o imaginário coletivo é o estereótipo disseminado pelo cinema – como no hollywoodiano “Um estranho no ninho”, ou até mesmo pelo icônico longa nacional “O bicho de sete cabeças”.

O estigma se reforça ainda, pelos relatos históricos de uso abusivo de correntes elétricas como método de tortura em inimigos políticos discordantes dos governos totalitários. É necessário combater o preconceito que ainda existe sobre a ECT, quanto mais requinte e cuidado forem aportados aos tratamentos, mais reconhecimento, confiança e êxito. Continuaremos a luta por buscar o reconhecimento da Agência Nacional de Saúde, fazendo com que a ECT seja incluída no rol de procedimentos dos Planos de Saúde e do SUS, para que pacientes carentes e menos abastados possam acessá-la.

Sabemos que somente por meio da informação que esse paradigma poderá ser transposto e que recomeços poderão acontecer. Os verdadeiros recomeços, os mais importantes, o recomeço de uma vida com qualidade.

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Matéria Por

José Antonio Rogoni Jr

Psiquiatria

CRM/MT 6338 | RQE 3970 | Cuiabá

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