A Importância da Avaliação do Colo Uterino em Gestantes

A Importância da Avaliação do Colo Uterino em Gestantes

Há muitos anos que uma das grandes preocupações da obstetrícia é a redução da prematuridade, que consiste no nascimento entre a 24 e 37 semanas de gestação e ainda acarreta grande morbimortalidade neonatal, inclusive nos países mais desenvolvidos. Com este intuito, há aproximadamente duas décadas, intensificou-se o estudo da importância do colo uterino como preditor de partos prematuros, pontuando seu papel como válvula responsável pela manutenção do feto dentro do útero até o final da gestação.

A avaliação ultrassonográfica do colo pela via transvaginal mostrou-se um método objetivo, não invasivo e de fácil acesso para a grande maioria da população, sendo este o exame mais útil para estudá-lo, permitindo sua avaliação biométrica e seu relacionamento com estruturas fetais, tais como, a membrana amniótica próxima ao Orifício Interno do Colo (OIC) e a placenta.

1) O Colo Uterino é diferente na gestação, e fora dela?

Sim. Durante a gestação, ocorre um acréscimo de água, geralmente acima de 85%, e diminuição da concentração de colágeno, que pode variar de 30 a 50%. Esta diminuição da concentração do colágeno está diretamente relacionada com o amadurecimento do colo que ocorre com a evolução da gestação. O comprimento do colo uterino tende a ser estável entre 14 e 28 semanas, medindo, em média, 4,0 cm antes das 22 semanas e 3,5cm entre 22 e 32 semanas. A partir de 28 a 32 semanas, há um declínio gradual do comprimento cervical.

2) Quais os principais itens avaliados pela ultrassonografia no estudo do colo durante a gestação?

O colo uterino pode ser avaliado desde a 12ª semana de gestação, principalmente através da medida do seu comprimento, traçando uma linha reta entre os orifícios interno e externo do colo, da presença de afunilamento resultante da dilatação do OIC e da espessura do segmento inferior do útero, visto que são estes os itens que realmente se modificam com a proximidade do parto. Com menor importância, pode-se avaliar também a espessura do canal endocervical, os diâmetros anteroposterior e transverso do colo, seu volume e a medida do ângulo formado entre o colo e o segmento inferior, dentre outras. Preconiza-se a avaliação ultrassonográfica pela via transvaginal para a grande maioria das gestantes devido às diversas estruturas fetais que podem se posicionar entre o transdutor convexo, usado na via abdominal, e o colo, e pela melhor resolução do transdutor endocavitário. A US Transvaginal tem mostrado índices de sensibilidade entre 76-100%, mas com especificidade de aproximadamente 50%.

3) Qual a relação entre o comprimento do colo e Trabalho de Parto Prematuro (TPP)?

A relação causal entre insuficiência cervical e TPP é complexa e continua por resolver. Sabe- -se que as modificações anatômicas do colo se iniciam com a dilatação do OIC, seguida pelo prolapso das membranas pelo canal endocervical, encurtamento do segmento distal do colo, com dilatação e extinção do orifício externo (OEC). Normalmente, esses eventos ocorrem no termo, ou seja, após a 37ª semana de gestação, mas vários processos fisiopatológicos têm sido propostos como estímulos para iniciar sua ocorrência precocemente, dentre eles: infecções, afecções inflamatórias/imunológicas, descolamentos de placenta subclínicos, etc. Também não se pode deixar de citar a Incompetência Istmo-Cervical (IIC), patologia responsável por partos prematuros extremos, geralmente antes da 28ª semana de gestação, que ocorre devido a uma alteração congênita estrutural do colo de certas mulheres, e os traumas cirúrgicos prévios, tais como: dilatação em curetagens, conização e laceração cervical em parto vaginal anterior. O conceito de colo curto difere entre autores, contudo, atualmente, utiliza-se 2,0 cm para gestantes sem antecedentes de parto prematuro e 2,5 cm para gestantes com antecedente pessoal positivo.

4) Quando realizar a avaliação do colo uterino?

As modificações cervicais podem ser diagnosticadas, tanto pelo exame vaginal quanto pela ultrassonografia. Tem-se preconizado, como avaliação basal do colo, a realização da US Transvaginal entre 20 e 24 semanas, exceto nas pacientes com história de parto pré-termo, ou intervenção cirúrgica prévia no colo, quando a avaliação deve ser realizada a partir da 16ª semana de gestação. Contudo, a definição do comprimento do colo pela ultrassonografia parece ser mais eficiente como preditor de TPP, em curto prazo, visto que, muitos autores constataram que, colos cujos comprimentos declinam por várias semanas consecutivas indicam maior risco de parto prematuro, mesmo em mulheres com comprimento do colo acima do percentil 10 (mínimo aceitável), em sua medida basal. Isso vem questionando o entendimento do que seria colo “competente” ou “incompetente”. Assim, exames seriados, a cada 10-14 dias, para a medida do comprimento do colo devem ser recomendados às mulheres com colo curto, ou com risco de parto prematuro, pois esta se mostra uma variável contínua, com diminuição média de 2,5mm por semana em gestantes que tiveram parto pré-termo antes de 35 semanas.

5) Existem tratamentos possíveis para se evitar o TPP, no caso de colo curto visualizado na US Transvaginal?

A partir do diagnóstico de colo curto, existem algumas possibilidades de tratamento, de acordo com a avaliação clínica do obstetra que acompanha o pré-natal, tais como: uso de progesterona natural, cerclagem uterina e pessário vaginal, dentre outras medidas comportamentais, e tratamentos de comorbidades que possam estar associadas.

Assim, a avaliação ultrassonográfica do colo uterino por via transvaginal é um método objetivo e não invasivo, útil para caracterizar o estado do colo, com vantagens de ser um exame que também pode avaliar estruturas adjacentes de forma dinâmica. Contudo, a relação causal entre Incompetência Cervical e TPP é complexa e dependente de muitos fatores que vão além do estado basal do colo uterino. A realização de acompanhamento pré-natal regular e assídua, associada à avaliação obstétrica de antecedentes pessoais e exame físico, ainda é o melhor modo de se prevenir o parto pré-termo e sua morbimortalidade, assim como pontuar em que momento e com qual frequência a avaliação transvaginal do colo uterino se mostrará realmente eficaz.

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Matéria Por

Eloana Diorio Azevedo

Ginecologia e Obstetrícia

CRM/PR 32368 | RQE 17565 | Foz do Iguaçu

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