Verdades e mentiras sobre cirurgia da obesidade

Verdades e mentiras sobre cirurgia da obesidade

Muito além da discussão sobre padrões estéticos, a obesidade hoje se tornou um grave problema de saúde pública e, segundo dados divulgados recentemente pelo Ministério de Saúde, a obesidade no Brasil já atinge 18,9% da população. Em 2006, a média era de 11,8%, aumento expressivo da ordem de 60% em pouco mais de uma década. O excesso de peso entre os brasileiros cresceu 26,3% no mesmo período, subindo de 42,6% para 53,8%. Já fazemos cem mil cirurgias bariátricas por ano no Brasil e observando estes números fica fácil entender porque há tanto interesse no assunto.

Na entrevista a seguir, vamos rever alguns dos questionamentos mais comuns sobre cirurgia para a obesidade e as respostas para cada um deles, através da entrevista exclusiva com o Dr. Paulo Pittelli, médico cirurgião, especialista no tema.

Revista Saúde Bauru: A pergunta mais comum sempre é: a cirurgia da obesidade serve para o meu caso?

Dr. Paulo Pittelli: Antes de tudo, para responder esta pergunta é necessário que você saiba qual é o seu índice de massa corporal que é calculado da seguinte forma:

Índice de Massa Corporal

IMC = Peso (kg) / Altura (m)²

Há indicação para a cirurgia, caso o IMC tenha valor acima de 40 ou valor entre 35 e 40, quando o paciente tem as doenças associadas à obesidade, o que comumente chamamos de comorbidades e que classicamente são diabetes tipo dois, apneia do sono, hipertensão arterial, dislipidemia, doença coronariana e as osteoartrites. O Conselho Federal de Medicina determinou em uma resolução de 2015, a inclusão de outras doenças nesta lista: doenças cardiovasculares, asma grave não controlada, osteoartroses, hérnias discais, refluxo gastresofágico com indicação cirúrgica, colecistopatia calculosa, pancreatites agudas de repetição, esteatose hepática, incontinência urinária de esforço na mulher, infertilidade masculina e feminina, disfunção erétil, síndrome dos ovários policísticos, veias varicosas e doença hemorroidária, hipertensão intracraniana idiopática, estigmatizarão social e depressão. Você deve ter idade entre 16 e 65 anos. As contraindicações para a cirurgia são as causas endócrinas de obesidade tratáveis, dependência de álcool ou drogas ilícitas, as doenças psiquiátricas graves e sem controle, risco anestésico e cirúrgicos muito altos e pacientes com dificuldade de compreender os riscos, os benefícios, os resultados esperados e as mudanças no estilo de vida requeridas com a cirurgia.

Quais os tipos de cirurgia bariátrica?

As cirurgias podem ser classificadas como cirurgias restritivas, que diminuem a quantidade de alimentos que o estômago é capaz de comportar, cirurgias disabsortivas, que reduzem a capacidade de absorção do intestino e as técnicas mistas, onde há um certo grau de restrição e, também, há um desvio do intestino causando má absorção de alimentos. Existem várias técnicas cirúrgicas, mas, atualmente, no Brasil, há apenas quatro técnicas autorizadas:

Bypass gástrico (gastroplastia em “Y de Roux”)

Ainda é a técnica mais praticada no Brasil. Fazemos o grampeamento de parte do estômago reduzindo drasticamente a sua capacidade e um desvio do intestino inicial, o que promove aumento de hormônios que dão saciedade, diminuindo a fome. Isso é o que leva ao emagrecimento, além de controlar o diabetes e outras doenças, como a hipertensão arterial.

Gastrectomia Vertical

É, atualmente, a técnica mais realizada no mundo. Também conhecida como “Sleeve”, consiste na retirada de 80% do estômago, tornando-o um tubo. Além do efeito restritivo pela redução do tamanho do estômago, retira-se justamente a parte do órgão onde é produzido o hormônio Grelina, responsável pela sensação de fome, quando ele se esvazia. Isso reduz a fome e tem a vantagem de preservar o trânsito dos alimentos pelo duodeno (onde há absorção de ferro, cálcio, zinco e vitaminas do complexo B).

Banda Gástrica Ajustável

Um anel inflável de silicone é colocado no estômago, próximo à saída do esôfago, criando-se uma pequena câmara onde o alimento fica coletado. O paciente é forçado a se alimentar lentamente e a ingerir pequenos volumes de cada vez. Um dispositivo é colocado próximo à pele, através do qual se infla ou desinfla a banda. É reversível e não impede outras cirurgias bariátricas em caso de insucesso.

Duodenal Switch

É a associação entre gastrectomia vertical e desvio intestinal. Nesta cirurgia, 80% do estômago é retirado, porém a anatomia básica do órgão e sua fisiologia de esvaziamento são mantidas. O desvio intestinal reduz a absorção dos nutrientes, levando ao emagrecimento. Na nossa prática clínica atual, em quase 100% dos casos, optamos pelo bypass ou pela gastroplastia vertical (Sleeve). As outras técnicas, assim como o balão intragástrico, estão sendo cada vez menos utilizados.

É muito arriscado operar?

Os riscos que o paciente corre numa gastroplastia são muito semelhantes aos de algumas cirurgias mais comuns, como a cirurgia da vesícula ou uma cesárea, por exemplo.

Como deve ser o preparo para a cirurgia?

O mais importante é a conscientização do paciente de que a cirurgia é apenas uma parte do processo pelo qual ele vai passar para perder peso. É apenas o pontapé inicial de longa jornada que mudará a sua vida para sempre. Seu médico solicitará vários exames, como endoscopia, ultrassonografia, raios-X do tórax, eletrocardiograma, exames de sangue e exame de urina. Se você tiver a pesquisa para H. Pylori positiva (que é aquela bactéria que comumente é encontrada no estômago), será necessário realizar a erradicação da mesma com medicamentos antes da cirurgia. Exames específicos podem ser considerados de acordo com cada caso, por exemplo, as provas de função pulmonar, ecocardiograma, cintilografia, teste ergométrico etc.… É fundamental que o paciente seja avaliado por um endocrinologista, que vai descartar as patologias endocrinológicas que eventualmente estejam levando o paciente à obesidade, a avaliação psicológica, onde o psicólogo vai orientá-lo sobre as mudanças que podem ocorrer no seu humor, alterações de ansiedade, depressão e possíveis quadros compulsivos depois da cirurgia, a avaliação nutricional, onde a nutricionista vai orientá-lo sobre a dieta pré e pós-operatória e a avaliação cardiológica, que determinará o risco cirúrgico do procedimento. É sempre interessante perder algum peso antes da cirurgia e nunca opte por comer muito ou comer alimentos muito calóricos antes da cirurgia, com a famosa desculpa que não poderá fazê-lo mais depois de operar.

É verdade que é preciso tomar vitaminas para resto da vida e que os cabelos caem?

Dependendo do tipo de cirurgia que seu médico optar para o seu caso, sim. As cirurgias disabsortivas e as mistas, como o bypass, por exemplo, causam deficiências de alguns tipos de vitaminas e obrigam o paciente a fazer reposição de vitaminas por tempo indefinido. Como regra, prescreveu as vitaminas no pós-operatório de todas as técnicas e seu endocrinologista decidirá, com o tempo e baseado nos seus exames, se haverá mudança na dosagem e mesmo a interrupção do seu uso. Com a desnutrição e a anemia que a cirurgia pode provocar no paciente, é muito comum que aconteça a de queda de cabelos, mas vitaminas e dietas específicas podem ser orientadas para minimizar este problema. 

É verdade que não se pode engravidar e que os anticoncepcionais não funcionam depois da cirurgia?

A gravidez só está indicada após 18 meses de pós-operatório, porque antes disso há riscos para o desenvolvimento do seu bebê. Alguns tipos de gastroplastia causam alterações na absorção de algumas substâncias e os anticoncepcionais que, atualmente tem doses muito baixas de hormônios, realmente perdem a sua eficácia. Por isso, habitualmente, optamos pela colocação de DIU ao invés do uso de pílulas. Converse com o seu ginec ologista!

Todo mundo precisa de uma cirurgia plástica depois de operar? Quando ela pode ser realizada?

A cirurgia plástica, normalmente, está indicada nos pacientes que perdem muito peso, principalmente quando ficam com muito excesso de pele, mas é necessária apenas em uma pequena parte dos pacientes. O ideal seria operar, quando for o caso, pelo menos depois de dois anos da gastroplastia.

Quanto tempo demora o procedimento cirúrgico?

Na nossa experiência, geralmente o bypass dura por volta de uma hora e a gastroplastia vertical tem duração de trinta ou quarenta minutos, ambas realizadas por laparoscopia. O paciente, geralmente, fica internado dois ou três dias e vai para casa com um dreno que retiramos depois de três dias no consultório.

Quanto tempo o paciente fica afastado do trabalho?

Na maioria dos casos, apenas 15 dias são suficientes.

É verdade que é muito comum haver depressão depois de operar?

Não. O que de fato acontece é que a depressão e a compulsão alimentar, por exemplo, são duas vezes mais comuns em obesos do que na população em geral. Por isso, é muito importante a avaliação e o acompanhamento psicológico no pré e no pós-operatório. Como foi dito anteriormente, recentemente o CFM acrescentou a depressão no rol das comorbidades para a indicação da cirurgia bariátrica.

É necessário fazer exercícios depois da cirurgia?

Geralmente, indicamos exercícios físicos depois de dois meses para a maioria dos pacientes, mas logo nos primeiros dias estimulamos as caminhadas leves. É claro que os exercícios devem ser realizados sob orientação de um profissional de educação física ou de um fisioterapeuta e o tipo de exercício, assim como a sua intensidade, devem ser definidos individualmente. Os exercícios físicos estimulam o aumento do metabolismo, favorecem a queima de gorduras e a perda de peso e reduzem a perda de massa muscular.

A cirurgia pode ser desfeita?

Algumas cirurgias podem ser desfeitas e outras não. Por exemplo, a banda gástrica e o bypass sim, mas a gastroplastia vertical não. No caso de pacientes que não estão tendo o resultado que se esperava antes da cirurgia, a gastrectomia vertical pode ser transformada no bypass.

Quanto peso é preciso perder nos primeiros meses de pós-operatório?

Não existe uma regra do quanto de peso tem que ser perdido em determinado tempo, pois cada paciente é diferente do outro e cada caso tem uma evolução própria. Perdas de peso muito acentuadas no início deixam o paciente muito satisfeito, mas não é o ideal, porque geralmente levam à maior desnutrição e maiores alterações metabólicas. O desejável é perder peso de forma lenta, mas contínua.

Há chances do paciente de voltar a engordar depois de operar?

O chamado reganho de peso, que é quando o paciente emagrece, mas volta a ganhar peso depois de um tempo, realmente pode acontecer. Infelizmente, o motivo disso é que alguns pacientes simplesmente deixam de fazer o acompanhamento nutricional e endocrinológico, de realizar exercícios e de tomar as vitaminas.

Ver perfil

Matéria Por

Paulo Jaziel Pittelli

Cirurgia do Aparelho Digestivo

CRM/SP: 91837 | RQE nº 23060 | RQE nº 23061 | Bauru

Deixar Comentário